30.4.07

Inspiração: OuLiPo

A idéia de "música potencial" que guia este blogue é derivada da "literatura potencial", gênero criado nos anos 1960 por um grupo de escritores (a maioria franceses) chamado OuLiPo: Ouvroir de Littérature Potentielle.

Como ouvroir – uma palavra muito pouco comum no francês, vale a pena ressaltar – é o "lugar onde se obra", a tradução literal de OuLiPo seria algo como obraria ou obradouro de literatura potencial. A tradução mais óbvia seria por "oficina" ou "ateliê", mas o grupo deixa claro que não é uma oficina, o que nos tira essa possibilidade. Estávamos nesse grande impasse, até que o Leo sugeriu "armazém", que não é propriamente um ouvroir, mas traz uma solução simpática para o problema, e assim ficamos, faute de mieux.

De volta ao OuLiPo: seus membros mais conhecidos são Georges Perec, Raymond Queneau e Italo Calvino (que teve uma participação modesta no grupo, apesar de ser o membro de maior projeção internacional). François Le Lionnais, Jacques Roubaud e Harry Matthews estão entre outros membros da trupe, que tinha 36 componentes em 2006 (sim, eles ainda existem e se reúnem uma vez por mês).

O princípio por trás da literatura potencial é a busca de novas estruturas e padrões na escrita, inspirada muitas vezes em conceitos matemáticos e guiada invariavelmente por contraintes. Literalmente, essa palavra significa "constrangimento" (constraint, em inglês), ou "restrição", termo mais amistoso que vamos preferir aqui.

A escrita por contrainte é aquela em que o autor se obriga a seguir determinados princípios formais de natureza diversa. Palíndromos, por um lado, ou formas poéticas clássicas como o soneto ou o haicai, por outro lado, são bons exemplos de contraintes que existiam bem antes da criação do OuLiPo.

Um dos objetivos do grupo é explorar as restrições já existentes na criação literária, bem como criar novas restrições aplicáveis à escrita – na definição deles próprios, "os oulipianos são ratos que constroem o próprio labirinto de onde se propõem a sair". Da fértil imaginação dos oulipianos, nasceram contraintes hoje clássicas como o lipograma, que consiste em se escrever sem usar determinada letra do alfabeto, cujo expoente maior é o romance La Disparition, de Perec, inteiramente escrito sem a vogal E, a mais comum no francês.

Os princípios do OuLiPo podem se aplicar a diversas outras formas de criação, o que acabou inspirando a criação de grupos análogos, reunidos sob o rótulo comum OuXPo, onde o X deve ser substituído por gêneros como pintura, teatro, cinema, fotografia, arquitetura, HQ – e música.

Embora exista um grupo batizado com o nome OuMuPo, ele não se dedica à pesquisa das potencialidades de criação com restrições como os outros grupos inspirados pelo OuLiPo. Tampouco é esse nosso objetivo neste armazém: não pretendemos fazer música potencial no sentido estrito do termo.

Pretendemos, na verdade, elaborar listas de canções feitas por terceiros, guiadas por restrições definidas por nós. Essas restrições podem ser dos mais variados tipos: listas de músicas sobre cidades, estados ou países; listas de músicas sobre dias da semana, meses do ano ou estações; listas de músicas sobre automóveis, trens ou aviões etc.

Esta é uma idéia de inspiração claramente oulipiana, daí o nome que escolhemos para o projeto. Bem-vindo ao armazém!

2 comentários:

Lu disse...

Qual o nome dessa musica?:

"O negócio é amor
o resto é conversa fiada.
Amanhã a gente morre
da terra não se leva nada."

Abraços,
lupopcorn@gmail.com

Bernardo Esteves disse...

"Conversa fiada", de Joãozinho Pecadora. Está no disco "Minha Portela querida", do Coro dos Compositores da Portela. Coisa fina!